• A aliados, Toffoli atribui a Lula entrega de relatório da PF sobre celular de Vorcaro ao STF

    Obrigado pelos colegas do Supremo Tribunal Federal (STF) a abandonar a relatoria do caso Master, o ministro Dias Toffoli tem atribuído ao presidente Lula, responsável pela sua indicação para o Tribunal em 2009, o movimento da Polícia Federal (PF) de entregar ao presidente da Corte, Edson Fachin, um relatório que destrincha suas conexões com Daniel Vorcaro.

    A interlocutores próximos, Toffoli afirma estar convicto de que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, agiu em nome de Lula ao enviar diretamente para o Supremo o dossiê, um calhamaço de aproximadamente 200 páginas com diversos registros de ligações, mensagens e transações que envolvem direta ou indiretamente o ministro. Nas conversas de bastidores, Toffoli tem avaliado que Rodrigues nunca tomaria tal atitude sem a autorização do petista.

    Outro fator que vem sendo usado pelo ministro para justificar a desconfiança em relação ao presidente é o fato de que, horas antes de Toffoli deixar a relatoria do processo por pressão dos outros ministros do STF, Lula se reuniu com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, de quem cobrou apuração rigorosa das fraudes do banco de Vorcaro. Como PGR, Gonet detém a prerrogativa de apresentar um pedido de suspeição contra o ministro.

    Mágoa antiga

    Para o ministro, um dos motivos do presidente da República para dar aval à ação da PF é uma mágoa antiga com ele em relação a um episódio ocorrido em 2019, durante a Lava-Jato.

    A pessoas próximas, Toffoli tem dito que não tem dúvidas de que o petista busca se vingar, embora ambos tenham se reconciliado no fim de 2024 após seis anos de distanciamento. O magistrado tem feito questão de frisar que Andrei Rodrigues chefiou a segurança de Lula nas eleições de 2022 e elaborou o relatório para satisfazer o petista, que tem criticado nos bastidores a atuação dele à frente do inquérito do Banco Master.

    Na ocasião, Lula cumpria pena por corrupção e lavagem de dinheiro na Superintendência da PF em Curitiba (PR) quando um de seus irmãos, Genivaldo Inácio da Silva, o Vavá, faleceu. Seus advogados acionaram a Justiça pedindo autorização para que ele comparecesse ao enterro, mas o pedido foi rejeitado na primeira e segunda instâncias.

    A defesa de Lula recorreu ao Supremo, e a decisão ficou a cargo de Toffoli, que à época presidia a Corte e estava de plantão no recesso do Judiciário. O ministro, porém, só decidiu sobre o pleito no dia seguinte e minutos antes do horário do enterro de Vavá em São Bernardo do Campo (SP), a mais de 400 quilômetros de onde o petista estava preso.

    Além disso, o magistrado determinou que Lula só poderia encontrar a família em um quartel militar, para onde o corpo do irmão poderia ser levado. Diante das condições impostas por Toffoli, ele desistiu de viajar.

    O ministro foi duramente criticado por aliados do petista. Na época, muitos frisaram que até a ditadura militar o havia liberado para acompanhar o enterro da mãe, Dona Lindu, quando estava preso em 1980 em razão das greves que liderou no ABC Paulista.

    Um mês depois, a Justiça Federal do Paraná autorizou Lula a comparecer ao enterro do neto Arthur Lula da Silva, que morreu aos 7 anos vítima de meningite meningocócica, também em São Bernardo do Campo, e o ex-presidente se reuniu com a família. Como não houve objeção das instâncias inferiores, a defesa não precisou recorrer ao Supremo.

    Aproximação com Bolsonaro e volta de Lula

    Outro episódio que Lula e os próprios petistas têm dificuldade de digerir em relação a Toffoli foi sua aproximação com Jair Bolsonaro. Às vésperas do primeiro turno da eleição de 2018, o ministro declarou que passaria a chamar o golpe militar que depôs João Goulart como “movimento de 1964”.

    À frente do STF, elogiou diversas vezes o então presidente, com quem confraternizou em sua casa em Brasília, além de trocar com Bolsonaro abraços efusivos e silenciar diante de declarações e manifestações de cunho autoritário.

    Depois que Lula foi eleito, em 2023, o petista passou a receber diversos acenos de Toffoli.

    Além de recados levados por interlocutores em comum, o ministro adotou medidas concretas. Em 2023, anulou as provas do acordo de leniência da Odebrecht e, na decisão, classificou a Lava-Jato como um “PAU DE ARARA DO SÉCULO 21”, em caixa alta, que teria promovido uma “verdadeira tortura psicológica” para obter “provas” contra inocentes.

    Os esforços foram em vão até o fim de 2024, quando Lula e Toffoli se reconciliaram após seis anos em um encontro revelado pelo GLOBO. Para o ministro, o perdão não teria sido capaz de apagar a mágoa.

    Mais recentemente, em dezembro de 2025, o presidente recebeu o magistrado para um almoço na Granja do Torto com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Segundo o colunista Lauro Jardim, a conversa girou em torno do caso Master. Haddad discorreu sobre o modus operandi das fraudes do Master e o presidente aconselhou o ministro que a investigação poderia “reescrever sua biografia”.

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