• Funcionária fantasma: depoimentos desmentem versão de André Fufuca, diz Metrópoles

    Metrópoles – Documentos em posse do Tribunal de Contas da União (TCU) mostram que os depoimentos de duas ex-chefes de gabinete colocam em contradição a versão apresentada pelo então deputado federal André Fufuca (PP-MA), atual ministro do Esporte do governo Lula, sobre a acusação de ter empregado uma funcionária fantasma na Quarta-Secretaria da Câmara dos Deputados, no biênio 2019-2020.

    Fufuca declarou que Katiane Ferreira Barboza, a funcionária fantasma, foi “cedida informalmente” à Liderança do PP, o que foi rebatido pela chefe de gabinete da legenda na época, que afirmou que a mulher nunca trabalhou no local. Já a chefe de gabinete da Quarta-Secretaria, onde Katiane estava lotada oficialmente, também prestou depoimento e afirmou que a funcionária não fazia parte dos grupos de WhatsApp do trabalho e que o parlamentar era responsável por coordenar os serviços dos subordinados.

    André Fufuca era quarto-secretário da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados quando nomeou Katiane Barboza para trabalhar nessa instância da Casa, responsável pela gestão dos apartamentos funcionais e concessão de auxílio-moradia aos parlamentares. Ela tinha remuneração de R$ 14 mil.

    Conforme revelou a coluna, a funcionária fantasma empregada por André Fufuca respondeu a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) da Câmara dos Deputados por “fraude ao sistema de controle de frequência” da Casa e recebimento de remuneração “sem a efetiva contraprestação laboral”, entre 30 de setembro de 2019 e 24 de agosto de 2020. No mesmo período em que estava lotada na Casa, ela também trabalhava no Ministério da Saúde.

    O acúmulo de cargos por si só já é passível de punição. Mas o que pesou contra Katiane Barboza no curso das investigações do PAD é que nem ela, nem o parlamentar conseguiram comprovar que, de fato, a mulher trabalhou para a Câmara dos Deputados.

    A reportagem fez contato com André Fufuca e com Katiane Barboza, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem. Por sua vez, a ex-chefe de gabinete da Liderança do PP e a própria Liderança do partido na Câmara dos Deputados afirmaram, por meio de nota, que “todas as considerações pertinentes ao assunto já foram devidamente apresentadas e encontram-se registradas nos autos do processo em julgamento no Tribunal de Contas da União”. A reportagem não conseguiu contato com a ex-chefe de gabinete da Quarta-Secretaria.

    Com base nas provas coletadas pela Câmara dos Deputados, parecer da área técnica do TCU endossa que funcionária fantasma não comprovou ter trabalhado na Liderança do PP, ainda que informalmente. “Hipótese foi de pronto rechaçada após a inquirição da testemunha Natália Morato Camargos”.

    As versões de Fufuca, da funcionária fantasma e das chefes de gabinete
    No curso do PAD, as versões apresentadas por André Fufuca e Katiane Barboza sobre o local de trabalho dela foram enfraquecidas pelos testemunhos de Natália Morato Camargos, ex-chefe de gabinete da Liderança do Partido Progressista (PP), e Valeska Monteiro de Melo Queiroz, então chefe de gabinete da Quarta-Secretaria.

    Fufuca declarou que Katiane Barboza começou dando expediente na Quarta-Secretaria e depois “foi cedida informalmente para a liderança” do PP. Anteriormente, o deputado federal havia informado à Comissão de Processo Administrativo Disciplinar que a nomeação dela ocorreu a pedido da Liderança do PP. Fufuca também negou que soubesse do acúmulo de cargos no Ministério da Saúde.

    Antes de prestar depoimento à Câmara dos Deputados, André Fufuca encaminhou documento à Comissão de Processo Administrativo Disciplinar falando que nomeação de Katiane atendia a um pedido da Liderança do PP

    Por sua vez, a ex-servidora admitiu que errou ao acumular os cargos, mas negou ser funcionária fantasma. Ela alegou que cumpria demandas do deputado federal de forma remota, encontrando-se com ele no “fim do turno” para despachar tarefas. Katiane sustentou que Fufuca lhe disse que a lotação dela seria na Liderança do PP.

    Ouvida como testemunha no curso do PAD, Natália Morato Camargos, que exerceu a função de chefe de gabinete da Liderança do PP, entre agosto de 2019 e fevereiro de 2021, negou conhecê-la. Questionada se Katiane Barboza alguma vez trabalhou na Liderança do PP, Natália Morato respondeu de forma incisiva: “Não, nunca trabalhou na liderança” e “nunca viu na vida” a ex-servidora naquele local.

    Quem também prestou depoimento como testemunha foi a ex-chefe de gabinete da Quarta-Secretaria. Valeska Monteiro de Melo Queiroz declarou que Katiane Barboza nunca fez parte dos grupos de WhatsApp de trabalho e que os serviços dos comissionados eram coordenados pelo parlamentar titular do órgão. Ou seja, o próprio André Fufuca.

    Punição e Ressarcimento
    A Comissão do PAD concluiu que Katiane não conseguiu comprovar que, de fato, trabalhou para a Câmara dos Deputados. O parecer da Advocacia da Casa notou que, apesar de André Fufuca ter afirmado que a servidora seria cedida à Liderança do PP, essa cessão “aparentemente, não se concretizou, segundo relato testemunhal da servidora Natália Morato Camargos”.

    Em janeiro de 2023, o então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), acatou parecer do colegiado e da área jurídica, e aplicou a penalidade de conversão da exoneração em destituição do cargo em comissão, por “descumprimento dos deveres funcionais”. Na prática, Katiane Barboza não pode mais ocupar funções públicas.

    Após conclusão do PAD, o caso foi enviado ao TCU para dar início ao processo de Tomada de Contas Especial (TCE), que busca o ressarcimento de R$ 284 mil, em valores corrigidos, de danos aos cofres públicos.

    Ministro do TCU poupou André Fufuca
    A área técnica do TCU chegou a produzir parecer pela inclusão do nome de André Fufuca no processo de TCE por entender que o parlamentar, responsável por nomear Katiane Barboza, “contribuiu para o pagamento indevido de remuneração e o consequente dano ao erário”.

    Para embasar essa responsabilização de Fufuca, os auditores do TCU destacaram, entre outros pontos, o depoimento da chefe de gabinete da Quarta-Secretaria, e também da ex-chefe de gabinete da Liderança do PP. A área técnica destacou um trecho do relatório da Comissão de Processo Administrativo que disse que Katiane Barboza nunca trabalhou na liderança partidária. “Hipótese foi de pronto rechaçada após a inquirição da testemunha Natália Morato Camargos”.

    Parecer da área técnica do TCU cita depoimento da chefe de gabinete da Quarta-Secretaria da Câmara dos Deputados, Valeska Monteiro de Melo Queiroz

    No entanto, o ministro Jorge Oliveira, relator do caso, poupou o político maranhense de prestar esclarecimentos sobre a irregularidade ao rejeitar a inclusão do nome de André Fufuca no processo de Tomada de Contas Especial.

    O caso ainda não foi julgado, nem o ministro relator apresentou voto. Na prática, isso não significa que André Fufuca esteja 100% livre de ser responsabilizado ou cobrado a dar explicações sobre a funcionária fantasma. A última movimentação do processo de Tomada de Contas Especial é do dia 25 de novembro.

    Deixe uma resposta