A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) conversou com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes horas antes da decisão que levou Jair Bolsonaro (PL) à Papudinha. A transferência foi considerada uma vitória para o grupo próximo ao ex-mandatário, que temia uma deterioração da sua saúde na sede da Polícia Federal, onde estava preso até esta quinta-feira (15).
De acordo com relatos feitos sob reserva, Michelle apresentou a Moraes um apelo centrado na situação clínica do ex-presidente e tentou sensibilizar o STF para a concessão de prisão domiciliar. Além do encontro com o relator, Michelle também buscou interlocução com outros ministros. Segundo pessoas a par das tratativas, ela esteve com o ministro Gilmar Mendes nos últimos dias e pediu apoio para reforçar o pleito da defesa. Uma fonte próxima à família relatou que a ex-primeira-dama chegou a pedir que Gilmar falasse com Moraes sobre o assunto.
A movimentação de Michelle e Tarcísio passou incólume ao conhecimento dos filhos de Bolsonaro como Eduardo e Flávio, diz essa pessoa, o que mostra o distanciamento entre dois grupos que têm estratégias diferentes para lidar com a prisão do ex-presidente.
Além de Tarcísio e Michelle, dois outros aliados ajudaram no trabalho de bastidor: o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, e a senadora Damares Alves, do mesmo partido. Um aliado do dirigente afirmou que ele também conversou com alguns ministros do STF.
Quem também procurou ministros do STF nos últimos dias foi o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para defender a prisão domiciliar para o ex-presidente. Tarcísio conversou com o próprio Moraes, com Gilmar Mendes e outros dois integrantes da corte.
A conversa de Michelle e Moraes, revelada pelo portal Metrópoles, foi intermediada pelo vice-presidente da Câmara, Altineu Côrtes (PL-RJ), segundo fontes do partido relataram à Folha, sob condição de anonimato. O encontro aconteceu no período da manhã. A decisão foi emitida por volta das 17h. Procurados, o ministro e o deputado não confirmaram nem negaram o encontro.
Segundo pessoas a par das conversas, Michelle solicitou a Altineu uma audiência com Moraes no início desta semana. Ela estaria preocupada com questões de saúde de Bolsonaro, que passou por cirurgia nos últimos dias do ano passado e, após a intervenção, sofreu uma queda na cela da PF.
De acordo com interlocutores, o parlamentar esteve com o ministro na quarta-feira (14), quando informou sobre o desejo de Michelle por uma conversa. Moraes informou que estaria aberto a escutar a ex-primeira-dama.
Como mostrou a Folha, Michelle também esteve com o decano do STF Gilmar Mendes, a quem solicitou ajuda para concessão de prisão domiciliar a Bolsonaro. Em paralelo, ela publicou um vídeo de agradecimento a um grupo de deputados federais que pediram o mesmo ao Supremo. “Sigamos firmes. Sejamos fortes e corajosos! Muito obrigada. Que Deus os abençoe”, escreveu.
Num gesto à PF, Michelle agradeceu ainda à corporação pelo apoio durante o período em que o ex-presidente ficou preso na superintendência da instituição em Brasília.
“Continuo confiando e agradecendo a Deus, certa de que tudo acontece no tempo do nosso amado Pai, e não no nosso. Sou grata a todos da PF que, durante o período em que o meu amor esteve lá, cuidaram dele com atenção, auxiliando nas medicações e nas refeições. Que Deus os recompense e os abençoe grandemente”, disse a ex-primeira-dama nas redes sociais.
Após a transferência para a “Papudinha”, Michelle reagiu também publicamente. Em publicação nas redes sociais nesta sexta-feira, ela pediu para não ser alvo de julgamentos ou “rótulos de conotação política” em razão das tratativas no STF. “Àqueles que também amam e defendem o meu amor, o nosso líder, peço que não me levem ao tribunal do julgamento pessoal, que não se apressem em me julgar ou a criar rótulos de conotação política”, escreveu.
A ex-primeira-dama afirmou que, no “tempo oportuno”, as pessoas compreenderão os movimentos: “Agimos sempre pedindo o discernimento de Deus. No tempo oportuno, vocês irão compreender todas as coisas. Confiem nele (Jair). Confiem em mim. Confiem em Deus!”, completou.
Redução de danos e insistência na domiciliar
A “Papudinha” é o apelido da sede de um batalhão da Polícia Militar de Brasília que fica perto do Complexo Penitenciário da Papuda. Lá, Bolsonaro tem uma cela maior e com mais estrutura, e por isso sua transferência foi considerada uma redução de danos.
Mesmo assim, caciques bolsonaristas reclamam da situação do ex-presidente. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), disse à Folha que Moraes submete Bolsonaro a risco de morte.
“A transferência para a Papudinha escancara o abuso: traficantes e assassinos recebem tratamento mais humano do Estado do que um homem preso por crime impossível. (…) Por mais que a nova prisão seja mais ampla que a atual, com idade e comorbidades que tem, Bolsonaro deveria estar em prisão domiciliar”, afirmou o senador.
O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), deu declaração na mesma linha. “A gente não quer Papuda ou Papudinha. A gente quer ele em casa. É mais um martírio, vamos continuar pressionando para ele ir para casa”, declarou.


