Folha de SP – O presidente Lula (PT) acelerou as tratativas para formação de seu palanque no Maranhão e busca um nome de consenso para manter sua base unida na disputa pelo governo do estado.
A base enfrenta uma disputa em clima de guerra aberta entre o governador Carlos Brandão (sem partido) e o grupo dos antigos aliados de Flávio Dino, ex-governador e hoje ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).
O governador lançou o sobrinho Orleans Brandão (MDB) para concorrer ao governo, bagunçou o campo lulista e enfureceu petistas, que esperavam ver o vice-governador Felipe Camarão (PT) como candidato ao governo.
Integrantes do PT, do Palácio do Planalto e até do governo de Brandão afirmam que havia um acordo para que o governador deixasse o cargo em abril para concorrer ao Senado. Assim, o vice assumiria e disputaria o governo no cargo.
O governador, porém, anunciou que cumprirá seu mandato até o final e nega estar rompendo um acordo. “Nunca houve esse acordo de apoiar o Felipe Camarão”, disse ele à Folha.
Brandão foi vice de Dino, assumiu o governo em abril de 2022 e foi reeleito em outubro daquele ano. Ao longo do mandato, contudo, Brandão e Dino se distanciaram.
Ao ser nomeado ministro do STF, o ex-governador pelo PSB teve que se afastar da política partidária, mas seus aliados seguiram com um grupo relativamente coeso. Parte deles passou a fazer oposição e disputar espaços com o grupo de Brandão.
O clima de beligerância se acirrou no último ano. Brandão anunciou que ficaria no cargo, evitando a ascensão de Felipe Camarão ao governo, e indicou o sobrinho para a sucessão.
A avaliação, no entorno do presidente, é que a única forma de manter as forças de esquerda e o grupo político do governador juntos seria encontrar um terceiro nome de consenso para a candidatura.
Lula escalou o presidente do PT, Edinho Silva, para discutir o assunto com o governador. Edinho deve ter uma conversa com Brandão e sugerir que ele escolha um terceiro nome. Um dos argumentos seria que indicar um sobrinho como sucessor pode ser interpretado como forma de criar uma oligarquia.
Um dos nomes apresentados foi o do ministro dos Esportes, André Fufuca (PP), que foi submetido a aliados do governador, mas não teve respaldo. Outra alternativa cogitada é a deputada estadual Iracema Valle (MDB), presidente da Assembleia Legislativa.
Brandão, contudo, diz que a candidatura de Orleans é irreversível e que não há possibilidade de uma terceira via. “Ele está em primeiro lugar nas pesquisas. Tem apoio de 12 partidos”, afirmou Brandão.
O vice-governador Felipe Camarão, por sua vez, diz que a prioridade do partido é a reeleição do presidente Lula e afirma que há espaço para uma composição com Carlos Brandão.
“A gente nunca fechou as portas para o governador. Basta ele cumprir o acordo original no qual ele renuncia para disputar ao Senado, eu assumo o governo e concorro à reeleição, ele indica o vice e a gente ganha a eleição junto”, afirma.
Enquanto as articulações seguem em andamento, Camarão iniciou sua pré-campanha ao governo e tem visitado municípios do interior. Ele ainda é pouco conhecido do eleitorado e aposta no apoio de Lula, que teve 71% dos votos no estado no segundo turno em 2022.
Camarão diz ter o apoio de ao menos 117 dos 192 diretórios do partido pela candidatura própria e articula uma chapa com o apoio do PC do B, PV, PSOL, Rede e PSB: “A minha candidatura será mantida, salvo deliberação contrária do presidente Lula”, afirmou.
Em outubro passado, o governador esteve com Lula e, de acordo com pessoas ouvidas pela reportagem, pediu que o presidente reconsiderasse seu apoio a Camarão. O argumento é que a candidatura de Orleans já estaria viabilizada e teria angariado apoios políticos a ponto não ser mais possível voltar atrás.
Lula não respondeu. Aliados do presidente relatam que ele ficou incomodado com o movimento do governador. O petista, porém, não pode prescindir de uma aliança local com Brandão. O Maranhão é estratégico para o presidente.
Brandão nega ter tido uma conversa com esse teor com o presidente da República. Diz que, quando encontrou Lula em outubro, discutiu candidaturas ao Senado –e que ainda não houve uma definição.
Paralelamente, o grupo remanescente de Flávio Dino tem construído pontes com o prefeito de São Luis, Eduardo Braide (PSD).
Com perfil centrista, ele tem eleitores tanto lulistas quanto bolsonaristas. Caso renuncie à prefeitura para concorrer ao governo, ele não deve buscar apoio do presidente, para evitar atritos com os eleitores da direita.
Brandão tem buscado apoio nos municípios para fortalecer a candidatura de Orleans. Adversários apontam como movimento nesse sentido a doação de veículos para as Câmaras Municipais.
Orleans Brandão tem 31 anos e atualmente é secretário extraordinário de Assuntos Municipalistas do governo estadual. Ele assumiu a presidência do diretório maranhense do MDB, sucedendo a seu pai, Marcus Brandão, que tem forte influência no governo.


