
Mensagens extraídas do telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro mostram que ele demonstrou preocupação e reclamou com executivos do Banco Master sobre atrasos nos pagamentos ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Nas conversas, ele afirmou que se tratava do “contrato mais importante que temos” e pediu para não haver atrasos. “Esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos”, orientou o banqueiro.
Procurados, o ministro e a defesa de Vorcaro não se manifestaram.
Firmado em janeiro de 2024, o contrato de R$ 131 milhões que previa a atuação do escritório comandado por Viviane junto ao Banco Central, à Receita Federal e ao Congresso, em defesa dos interesses do Banco Master, teve o pagamento atrasado pela equipe do banqueiro já no primeiro mês de vigência. De acordo com a 11.ª cláusula do contrato, os R$ 3 milhões líquidos deveriam ser quitados até o quinto dia útil de cada mês, o que não ocorreu em fevereiro.
Nas conversas do seu celular, Vorcaro disparou cobranças para vários interlocutores e funcionários sobre os pagamentos.
A primeira cobrança foi dirigida a Fabiano Zettel, alvo da Operação Compliance Zero e homem de confiança do ex-controlador do Master. Casado com Natalia Vorcaro, irmã do banqueiro, Zettel está preso desde março. Ele nega envolvimento nas fraudes.
Em 8 de fevereiro de 2024, Vorcaro escolheu Zettel para a primeira cobrança sobre o atraso: “Me manda Barci de Moraes assinado? Quando era o primeiro pagamento?”

Zettel encaminhou um arquivo com o contrato assinado. “Até o 5 dia útil”, respondeu.
“Então já passou. Não foi feito?”, questionou Vorcaro. “Confirma com Ângelo se não foi pago”, seguiu o banqueiro, em referência a Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, que era tesoureiro do Master e também é investigado pela Polícia Federal.
No mesmo dia, Vorcaro perguntou a Ângelo. “Pagou aquele contrato 3mm?”

“Este que o Fabiano me passou mais cedo… sim…”, respondeu o tesoureiro, enviando o comprovante de pagamento ao escritório Barci de Moraes no valor de R$ 3.422.268,14.
Pouco mais de um mês depois, em 15 de março de 2024, às 15h07, o ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro Fábio Faria – apontado como responsável pela aproximação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro – procurou o banqueiro do Master para tratar dos pagamentos atrasados.
Na sequência, Faria pediu a Vorcaro o contato do funcionário do Banco Master responsável por efetuar os repasses relativos ao contrato com o escritório Barci de Moraes. O banqueiro então enviou o contato de Ângelo.
Faria respondeu: “Passei pra ele”. De acordo com investigadores, o número de Ângelo da Silva teria sido repassado por Faria ao próprio ministro.
‘Vamos ter problemas’
Imediatamente após a cobrança de Fábio Faria, Vorcaro cobrou Ângelo com oito mensagens seguidas ressaltando que o contrato com o Barci de Moraes é o “mais importante que temos”.
“Angelo. Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não to entendendo isso. Contrato mais importante que temos te pedi pra não falhar. Surreal. Vamos ter problemas”, advertiu o banqueiro.

“Pagamento. ADV? Vou checar”, respondeu Ângelo. “Manda pagar agora”, ordenou Vorcaro ao tesoureiro do Master.
‘Pode pagar sempre, sem nota’
Minutos depois da cobrança de Vorcaro em conversa com Ângelo, o banqueiro diz a uma funcionária do Master, Romy Goerck Gentina Klenquen, superintendente de Back Office de Tesouraria, que o pagamento mensal de R$ 3 milhões para o Barci de Moraes não pode “atrasar um dia”.
“Romy esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos”, escreveu Vorcaro.

“Pode deixar, estou fazendo direto por aqui. Neste instante”, respondeu Romy Goerck. “Mas todo mês acompanha isso pra mim. Pode pagar sempre, sem nota. Do jeito que for”, orientou o banqueiro.
‘Ninguém ter acesso’
Em abril de 2025, Vorcaro questionou o tesoureiro Ângelo Silva sobre onde estaria o contrato físico do escritório Barci de Moraes firmado com o Banco Master e deu ordens para que o documento não fosse compartilhado com ninguém.
“Oi. Contrato Barci de Moraes. Ta onde? É algo que pessoal tem acesso”, questionou o banqueiro.
“Tenho q ver… O q precisa”, retornou Ângelo.

“Ninguém ter acesso. Vc pegar e não deixar ninguém ter acesso a isso!”, orientou Vorcaro. “Ok. Vou localizar amanhã”, escreveu o tesoureiro.
‘Não faz barci pix né’
Em outubro de 2025, um mês antes de ser preso pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro recomendou em diálogos com o superintendente-executivo de tesouraria do Master, Alberto Felix de Oliveira Neto, que os pagamentos ao escritório Barci de Moraes não deveriam ser feitos via Pix. A conversa não explica o motivo dessa cautela.
“Mas não faz barci pix ne? Fez?”, questionou Vorcaro.

“Fez, não pode? Foi pix para os mesmos dados da ted”, explicou Alberto Felix. “Não é bom”, conclui Vorcaro.
Até outubro de 2025, o escritório de Viviane recebeu do Banco Master R$ 80.223.653,84. O valor consta na declaração de Imposto de Renda da instituição financeira, enviada em abril à CPI do Crime Organizado, do Senado. (Estadão)
