Dilma vai ao Oscar como a pior atriz coadjuvante

No fundo, deve doer na alma de Dilma Rousseff a constatação de que fez o papel de uma rainha inepta, num enredo confuso, em que o protagonista foi Lula e cujo epílogo foi Jair Bolsonaro. Nesse contexto, é natural seu entusiasmo com a indicação do documentário companheiro ‘Democracia em Vertigem’ para o Oscar. Madame enxergou na novidade mais uma chance de se reposicionar em cena.

“A história do Golpe de 2016, que me tirou da Presidência por meio de um impeachment fraudulento, ganha o mundo…”, escreveu Dilma em nota. “O filme é corajoso, por mostrar o jogo sujo que resultou no meu afastamento do poder…”

Um documentário, como o nome indica, deveria retratar com fidelidade documental um pedaço da história. Num filme como o da cineasta Petra Costa, por engajado, certos fatos e documentos não se confundem com fatos e documentos certos. Quando a verdade tem lado acaba virando meia verdade. E o perigo da meia verdade é a pessoa contar exatamente a metade que é mentira.

No dia em que o Senado levou sua cabeça à bandeja, Dilma fez da tribuna uma autodefesa cenográfica. Sabendo-se deposta, teve a pretensão de falar para a história, não para os 81 senadores. Ensaiou suas melhores poses para as lentes de Petra. Sabia de antemão que o último capítulo de sua Presidência estava sendo filmado. Subiu ao palco sob a direção do caos —ou de Lula, que muitos acreditavam ser a mesma coisa.

Quando começa o caos?, perguntavam-se os brasileiros em crises passadas. O que é o caos? Onde fica o caos? Dilma matou, finalmente, a curiosidade coletiva. Seu governo apresentou a nação ao caos. De gestora impecável, Dilma virou uma espécie sui generis de totem. Um totem revestido com papel de moscas, que trazia grudados todos os indicadores de uma administração ruinosa.

Entre 2013 e 2016, a economia brasileira encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de patrícios. A Lava Jato demonstrara que o único empreendimento que prosperava no Brasil era a corrupção. A força-tarefa de Curitiba já havia produzido àquela altura 106 sentenças condenatórias. Juntas, somavam 1.148 anos, 11 meses e 11 dias de cadeia. Em Brasília, encontravam-se sob investigação no Supremo 364 pessoas e empresas.

Diante desse cenário, com a ruína a pino, as causas invocadas para cassar Dilma —o uso de recursos de bancos públicos para pedalar despesas que eram de responsabilidade do Tesouro e a abertura de créditos orçamentários sem a autorização do Congresso— eram pretextos formalmente válidos para condenar uma administradora precária pelo conjunto de sua obra.

Guiando-se por um script que trazia as digitais de Lula, Dilma falava às câmeras de ‘Democracia em Vertigem’ sobre uma crise que foi sempre culpa dos outros. Em timbre emocional, recordava seus tempos de prisioneira da ditadura. Lembrava da luta contra o câncer. E repetia o lero-lero segundo o qual jamais imaginara que teria de pegar em lanças contra outro “golpe”. Dizia isso em pleno Legislativo, num julgamento comandado por Ricardo Lewandowski, então chefe do Judiciário.

No papel de ‘inocenta inútil’, Dilma evocava os 54 milhões de votos que recebera em 2014 para defender seu retorno à poltrona de presidente. Não para governar, mas para convocar um plebiscito capaz de livrar o país dela própria e de Michel Temer simultaneamente. Cética, a plateia se divertia com as palavras de Dilma como quem brincava de roleta russa, na certeza de que a sinceridade que a oradora manipulava estava completamente descarregada.

Em poucas horas, Dilma iria embora. Levaria com ela as lentes de Petra Costa. Mas deixaria a crise, que continua fervilhando até hoje, como uma telenovela sem fim. A mesma Dilma que agora aproveita a cerimônia do Oscar para reencenar como comédia o drama do pseudogolpe negociou em 2016, por baixo dos panos, um acordo que não aparece no hipotético documentário.

Em 22 de agosto de 2016, longe dos refletores, Ricardo Lewandowski abriu uma fenda na sua agenda no Supremo para encaixar uma visita. Recebeu em seu gabinete a senadora Kátia Abreu, à época no PMDB. Autorizada pela amiga Dilma, a quem servira como ministra, Kátia foi conversar sobre a sessão de julgamento do impeachment, que ocorreria dali a nove dias, em 31 de agosto.

Kátia informou a Lewandowski que os aliados de Dilma apresentariam um requerimento inusitado aos 45 minutos do segundo tempo do julgamento do impeachment. Desejava-se votar separadamente a deposição de Dilma e a punição que poderia bani-la da vida pública por oito anos. Confirmando-se a deposição, os aliados de Dilma tinham a esperança de livrá-la do castigo adicional.

A senadora foi à presença de Lewandowski acompanhada de João Costa Ribeiro Filho, um personagem cujo anonimato não fazia jus ao protagonismo que desempenhou no enredo que produziu mais uma jabuticaba brasileira: o impeachment de coalizão, no qual o PMDB, partido do “golpista” Michel Temer, juntou-se ao PT para suavizar a punição imposta à “golpeada” Dilma, preservando-lhe o direito de ocupar funções públicas mesmo depois de deposta.

Partira de João Costa —um advogado mineiro que cresceu em Brasília e entrou para a política no Tocantins— a ideia de fatiar o julgamento do impeachment. Por ironia, o autor da tese que atenuou o suplício de Dilma já pertenceu aos quadros do tucanato. Em 2010, filiado ao PSDB, tornara-se suplente do senador Vicentinho Alves (PR-TO). Em 2011, trocara o ninho pelo PPL, Partido da Pátria Livre. Chegara a assumir a poltrona de senador por alguns meses, entre outubro de 2012 e janeiro de 2013.

Até ser apresentado à tese de João Costa, Lewandowski não cogitava realizar senão uma votação no julgamento do impeachment. Assim pedia o parágrafo único do artigo 52 da Constituição: “Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis.”

Quatro dias antes da visita a Lewandowski, Kátia estivera com Dilma, no Palácio da Alvorada. Levara João Costa a tiracolo. Imaginara que a amiga reagiria mal à prosa. Falar sobre dosimetria de pena àquela altura significava admitir que a condenação era mesmo inevitável. Mas Dilma recebeu muito bem a ideia. Autorizou a articulação.

Por sugestão da senadora, organizou-se uma reunião com José Eduardo Cardozo, o advogado petista de Dilma. Que também reagiu com naturalidade. Informado da articulação pela própria Dilma, Lula comentaria mais tarde, em privado, que enxergara sensatez na estratégia de cuidar também da pena que poderia ser imposta a Dilma.

Kátia Abreu cuidou de comunicar os planos ao então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Apresentado ao roteiro, Renan entusiasmou-se. Disse que considerava “certíssimo” livrar a ex-aliada da proibição de ocupar cargos públicos por oito anos.

Na sessão de julgamento, afora os encaminhamentos de praxe —dois senadores a favor e outros dois contra— Renan Calheiros discursou, ele próprio, em defesa do abrandamento da punição de Dilma. “No Nordeste, costumamos dizer uma coisa: ‘Além da queda, coice’. Não podemos deixar de julgar, mas não podemos ser maus, desumanos.”

Foi nesse diapasão que os senadores livraram Dilma do coice da inabilitação para o exercício de funções públicas depois de tê-la derrubado da Presidência da República. Graças à generosidade dos hipotéticos golpistas, Dilma pôde candidatar-se ao Senado. O eleitorado de Minas recusou-se a conceder-lhe um mandato de senadora, devolvendo-a à condição de cuidadora de netos.

Numa das cenas do seu filme, Petra Costa exibe trecho do último discurso de Lula antes de ser preso. Ele declara a certa altura: “Os poderosos podem matar uma, duas, ou cem rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera”. A divindade petista imaginava àquela altura que plantaria mais um poste no Planalto: Fernando Haddad. Deu no que está dando.

Embora não soubesse, Lula e suas perversões haviam se transformado nos principais cabos eleitorais de Jair Bolsonaro. É contra esse pano de fundo que Dilma celebra o sucesso do documentário de Petra Costa.

“A verdade não está enterrada”, escreveu madame em sua nota, sem se dar conta de que vai à cerimônia do Oscar como marionete de um enredo maquinado por Lula. Não importa o resultado da disputa de melhor documentário de 2020. Dilma já assegurou o título de pior atriz coadjuvante da história. Blog Josias de Souza

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