Divergências entre partidos travam criação de federação

Divergências sobre candidaturas a governador nos estados, dificuldade para a definir quais serão as regras para escolher os postulantes na eleição municipal de 2024 e falta de consenso na distribuição dos postos de comando têm emperrado as negociações para a formação de uma federação de partidos de esquerda e centro-esquerda em torno da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Potenciais aliados do PT enxergam hoje com pessimismo a chance de um acordo vingar a tempo de ser registrado na Justiça Eleitoral. O prazo é o começo de abril.

No PT, a formação do bloco ainda é vista como possível, apesar do reconhecimento de que as costuras são complexas. Mesmo que o agrupamento formal não vingue, é provável que, ainda assim, PSB, PCdoB e PV apoiem Lula.

Aprovada no ano passado, a federação permite que duas ou mais legendas se agrupem por quatro anos nas esferas municipal, estadual e federal. Na prática, as siglas atuam nesse período como se fossem um único partido.

Presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira saiu decepcionado de uma conversa com Lula no dia 20. O seu partido cobra do PT apoio a candidatos a governador em cinco estados: Pernambuco, Rio, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e São Paulo.

— Achei que ele (Lula) tinha chamado para dar uma resposta às nossas demandas, mas em vez disso, veio falar de candidatura (do PT) em Pernambuco. A reunião foi absolutamente improdutiva — afirma Siqueira.

Mudança de rota
O apoio do PT ao ex-prefeito Geraldo Júlio (PSB) em Pernambuco estava encaminhado. Mas Júlio desistiu da disputa, e o diretório petista do estado aprovou a pré-candidatura do senador Humberto Costa.

Pernambuco é considerado um estado-chave pelo PSB. O partido comanda o governo local há 16 anos. As duas principais lideranças da sigla nas últimas três décadas, Eduardo Campos e seu avô Miguel Arraes, fizeram carreira no estado.

Há impasse ainda em São Paulo. O PSB quer lançar o ex-governador Márcio França e o PT, Fernando Haddad. Diante das dificuldades, o presidente do PSB entende que o prazo está apertado. Por causa de todos os trâmites burocráticos, na opinião dele, as divergências teriam que estar solucionadas até janeiro:

— Essa história de federação é um negócio muito complicado. Não vou dizer nem não nem sim, mas se vê, de cara, que não será fácil.

Na reunião com Lula foi abordada ainda uma proposta apresentada pelo PCdoB de divisão dos postos de comando da possível federação. A ideia é que metade das vagas fosse dividida de forma igual entre os quatro partidos e a outra metade com base no tamanho das bancadas na Câmara.

— Não teve uma discussão ampla, mas se percebe que a atmosfera não é muito boa. O melhor é a gente esquecer isso e esperar as decisões do PT — acrescenta Siqueira.

Há receio de que se tiver um domínio muito grande dos postos de direção da federação, o PT imponha os seus candidatos na eleição municipal em detrimento dos outros partidos.

No PCdoB, a possibilidade de formação de federação com a participação do PT ainda é considerada viável por uma parte da direção, mas há um movimento de uma ala para que a união seja feita só com PSOL, Rede e PV, legendas menores.

— Tem um problema de assimetria. Reunir partidos que têm tamanhos muito diferentes. Como vai ser a governança dessa federação? Duvido que o PT aceite ter um voto e o PCdoB também. Ou vai ser proporcional aos votos obtidos na eleição? Aí, o PT vai governar sozinho — conclui o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP).

O parlamentar tratou do assunto em uma conversa na semana passada com a ex-deputada Manuela D’Ávila (RS), que foi candidata a vice de Fernando Haddad (PT) na eleição de 2018. Orlando acredita que o fato de o PT e o PSB se colocarem como partidos de centro-esquerda permite que seja criado um outro campo:

— Existe espaço para um polo revigorado de esquerda no Brasil. Com uma agenda que se inspire no socialismo, mas que fale de desenvolvimento e sustentabilidade, que se conecte com a juventude.

O deputado do PCdoB defende, inclusive, que essa federação apoie a candidatura de Lula, mesmo não tendo se vinculado ao PT.

Cartas na mesa
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, afirma que a federação voltará a ser discutida com o PSB em janeiro.

— Não sou pessimista em relação à federação. Claro que tem dificuldade. Vai exigir paciência, dedicação e generosidade. E o PT está disposto. É legítimo os partidos colocarem na mesa as suas pretensões, mas não é numa primeira conversa que se encerra um acordo.

Gleisi diz que o partido ainda não analisou a proposta de divisão dos postos de comando da federação.

— Óbvio que não queremos a supremacia. As coisas têm que ser na proporcionalidade. Mas não dá para o PT se dissolver nisso, sei do tamanho do PT e da importância que ele tem para o campo da esquerda. Temos que chegar a um bom termo. O Globo

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